Organização associada à Ajor, o Núcleo se tornou o primeiro veículo brasileiro a publicar uma política aberta de uso de inteligência artificial na redação
Uma das tendências para o jornalismo em 2023, segundo o Instituto Reuters, o uso da inteligência artificial em redações vêm se massificando e, com isso, levantando debates sobre ética, desinformação e novos modelos de trabalho.
Com o objetivo de criar diretrizes claras sobre o uso da tecnologia, veículos apostam agora na contratação de profissionais especializados e em adaptar suas estratégias editoriais. Em fevereiro, o Financial Times anunciou a contratação de sua primeira editora de inteligência artificial. Em março, foi a vez da The Wired publicar regras internas sobre o uso de AI generativa na redação.
Na última semana, o Núcleo, organização associada à Ajor, se tornou o primeiro veículo brasileiro a ter uma política aberta sobre uso de IA. O documento apresenta uma série de parâmetros que guiam a equipe e informam os leitores sobre como o site utiliza a tecnologia, tanto na produção de conteúdo quanto em suas aplicações. E, principalmente, como não a utiliza.
O veículo pode, por exemplo, usar inteligência artificial para construir sumários de textos, sugerir posts alternativos para redes sociais, criar ilustrações em casos excepcionais e auxiliar no desenvolvimento de softwares. No entanto, a política define que a organização nunca usará a tecnologia para gerar o conteúdo completo de uma publicação e que textos ou imagens gerados por AÍ não serão publicados sem uma revisão humana.
A Ajor conversou com Sérgio Spagnuolo, cofundador do Núcleo, para entender a motivação por trás da política. Ele foi o moderador da mesa “Os possíveis impactos da IA no jornalismo e no debate público”, última sessão do Festival 3i 2023, que aconteceu entre os dias 5 e 7 de maio no Rio de Janeiro.
Sérgio Spagnuolo: A inspiração veio do painel sobre inteligência artificial que mediei no Festival 3i. Nesse debate, ficou muito claro que IA é um recurso incrível, mas que pode ser usado de maneira irresponsável e até mesmo desinformativa. Ao estabelecer regras e parâmetros abertos sobre nossos interesses e processos, o Núcleo cria uma camada importante de transparência para que nossos leitores e leitoras sejam informados sobre como a gente está usando IA.
Sérgio Spagnuolo: Não dá pra saber. As empresas de jornalismo não estão divulgando muito como usam IA. Em alguns casos, como a CNET, nos EUA, mostram que apenas deixar a IA generativa escrever e publicar, com pouca supervisão humana, não é uma boa ideia. Mas, em geral, não acho que muitos veículos brasileiros já estejam usando IA para produzir conteúdo integralmente. Mas esse é um risco que quisemos tratar na nossa política, de que IA nunca será responsável por nosso conteúdo.
Sérgio Spagnuolo: IA veio pra ficar. Não é uma ondinha como blockchain ou metaverso. Os benefícios de usar inteligência artificial são muito claros no dia a dia, desde ajudar na concisão de textos até pesquisar ideias. Mas também há os perigos, como utilizar IA pra produzir conteúdo em massa para clickbait e, claro, desinformação – isso sem falar das empresas que inevitavelmente tentarão substituir pessoas por máquinas.
Assista à sessão sobre Inteligência Artificial no Festival 3i 2023: