Organizações associadas à Ajor explicam o processo, os desafios e as vantagens de trabalhar com jornalismo visual no meio digital
O uso de gráficos, com o objetivo de auxiliar na compreensão de um tema, sempre esteve presente no jornalismo impresso e no telejornalismo. Embora tenha ganhado novos elementos e possibilidades, isso não é diferente no ecossistema digital.
Durante a cobertura eleitoral, a visualização de dados é um elemento essencial para organizar todas as informações sobre candidaturas, pesquisas eleitorais e sobre a própria votação. Organizações associadas à Ajor contam como fazem uso de técnicas do jornalismo visual e de dados para cobrir as eleições em 2022.
Editor de Gráficos do Nexo Jornal, Gabriel Zanlorenssi explica que um dos grandes desafios de cobrir eleições é a enorme quantidade de dados eleitorais disponíveis. “Até mesmo pela sensibilidade do tema, há que se tomar o cuidado de não fazer associações levianas. Não é necessária uma abordagem acadêmica da cobertura eleitoral, mas compreender discussões que são feitas há muitos anos pela Ciência Política e em outras áreas das humanidades ajuda a separar entre o que é relevante e sólido, do que é trivial ou espúrio”, afirma.
Para ele, o jornalismo digital pode ajudar a qualificar o debate que é feito nas redes sociais, com conteúdo relevante e visualmente bonito. Além disso, o uso de números, gráficos e mapas eleitorais desperta mais atenção do público, o que pode render uma audiência positiva para os veículos.
Zanlorenssi ressalta, entretanto, a importância do uso correto e ético dos dados. “Associações levianas e erros metodológicos podem desinformar o eleitor. Mais do que dizer o que é certo ou errado com dados e gráficos, o jornalismo digital baseado em dados tem a missão de aumentar o letramento estatístico da população”, afirma.
Este #NexoGráfico mostra a tendência da intenção de voto para presidente no 2º turno, com dados atualizados até esta quarta-feira (19). Veja dados e metodologia no link https://t.co/JpLW6uQTyt pic.twitter.com/FDa6QrxMEp
— Nexo Jornal (@NexoJornal) October 19, 2022
A cobertura eleitoral do Nexo focou em olhar para tendências mais gerais das pesquisas eleitorais. Para isso, o veículo desenvolveu um agregador de pesquisas para a newsletter ‘Durma com Essa’. Além de mostrar resultados específicos da votação, o time também produziu gráficos sobre discussões relevantes para a campanha, como fome, desemprego, economia e meio-ambiente. No dia 30 de outubro, durante o segundo turno, serão publicados mapas e materiais interativos.
Já a Agência Tatu, especializada em jornalismo de dados sobre o Nordeste, mergulha na visualização de informações regionais e tem como princípio que os gráficos sejam compreensíveis à população, o que a diretora de conteúdo, Graziela França, considera um dos principais desafios.
“É imprescindível fazer uma boa análise, checar os dados e o que foi extraído dele e, somente depois, pensar em como fazer a visualização dessas informações. Um material visual, como gráficos ou infográficos, é interessante, mas o mais importante é que o público consiga entender a informação passada”, afirma.
Quais candidatos a deputado federal e estadual tiveram um ou nenhum voto nas #Eleições2022 segundo dados do TSE na nova matéria da Tatu ????https://t.co/d06FPzXyaV
— Agência Tatu (@Agencia_Tatu) October 4, 2022
O veículo não trabalha com as pesquisas de intenção de votos, mas com todos os demais dados que envolvem o eleitorado e os candidatos, sempre focando no recorte regional para depois aprofundar em temas específicos.
“Até o segundo turno, seguiremos fazendo matérias e, consequentemente, gráficos e infográficos nessa perspectiva. Sabemos que o Nordeste esteve em grande evidência após o primeiro turno das eleições deste ano, desta forma, estamos ainda mais atentos a informações relevantes sobre o contexto regional”, detalha França.
Na Gênero e Número, a cobertura é focada em dados eleitorais sobre raça e gênero. O que pode ser um desafio, isso porque os dados raciais só foram incluídos pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral) a partir de 2016, existindo um vazio com relação às disputas anteriores.
Não é diferente com as informações de gênero. Diretora de conteúdo da plataforma, Maria Martha conta que, embora existam dados de sexo dos candidatos, não existem os de gênero, que acabam sendo levantados por organizações independentes, como a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) e a Vote LGBT.
O processo de coleta das informações é extenso e rigoroso: “Raspamos dados do TSE sobre candidaturas e, após a votação, sobre os resultados. Em seguida, limpamos as planilhas sujas e fazemos a análise e cruzamento, para buscar as principais conclusões que eles nos trazem, a partir de um recorte de raça e sexo. São comparações com resultados de eleições anteriores, proporções de eleitas em determinados grupos de minorias políticas e escrutínio de financiamento de campanha, por exemplo”, explica Martha.
Nesta eleição, tivemos um recorde de candidaturas LGBTQIA+ eleitas para o Congresso Nacional e para os governos estaduais, segundo levantamento do @votelgbt. pic.twitter.com/ykMUfPfFce
— Gênero e Número (@generonumero) October 13, 2022
Para o segundo turno, o veículo pretende radicalizar na abordagem objetiva dos dados e na comunicação sobre como eles impactam a sociedade brasileira: “O que está em jogo nas urnas nos obriga a ter uma comunicação eficiente ao máximo sobre os riscos que a reeleição de Bolsonaro representa. É nosso dever, como comunicadoras que tratam de direitos, falar para fora da bolha. Temos uma estratégia para isso que inclui uma comunicação nas ruas e mais objetividade nas redes, além de reportagens mais enxutas”, conclui.
Para os três representantes das associadas, as redes sociais são uma das grandes vantagens do jornalismo digital. “É um suporte para divulgá-los [os dados] a quem não necessariamente segue plataformas de jornalismo ou consome reportagens”, conclui a diretora da Gênero e Número.
Imagem: Jason Briscoe/Unsplash