Captação de recursos, distribuição de conteúdo e cobertura climática são alguns dos temas em foco para o jornalismo digital no próximo ano, segundo lideranças de veículos
Organizações associadas à Ajor se reuniram na última terça-feira (17) em uma edição especial da “Conversa em Off”, encontro exclusivo para membros, para debater as principais tendências e desafios do jornalismo digital para o próximo ano e colaborar com ideias para a construção do Festival 3i 2024.
A conversa foi mediada pelo jornalista Moreno Cruz Osório, da Farol Jornalismo, newsletter semanal que, desde 2014, acompanha as transformações do campo jornalístico. Desde 2016, a organização reúne as principais perspectivas do setor em um especial chamado “O jornalismo no Brasil”, com análises de profissionais e pesquisadores. Acesse o levantamento de todos os textos já publicados.
O encontro levantou debates desde o acesso a financiamento até a distribuição de conteúdo e cobertura climática. Conheça alguns tópicos:
A fundadora da Marco Zero Conteúdo e presidente eleita do Conselho da Ajor, Carol Monteiro assinalou a importância da sustentabilidade financeira, com uma ideia centrada não apenas na captação de recursos, mas também em como organizar e gerir a distribuição destes dentro de uma organização, além de garantir o acesso de veículos de fora da região Centro-Sul do país a financiamentos.
“De certa forma, percebemos que há recursos. Eles existem, mas normalmente ficam com as organizações do Sudeste. É uma discussão importante, inclusive dentro da Ajor: meios de fazer com que estes recursos cheguem à maior diversidade possível”, explicou.
A editora-chefe da Revista Alagoana Lícia Souto também destacou a necessidade de reinvenção dos modelos de negócio, tanto em fontes de recurso quanto editorialmente, adaptando-se às novas formas de consumo de informação pelo público.
Nesse contexto de renovação da profissão, a diretora executiva da Ajor, Maia Fortes, recordou o trabalho da Associação no debate sobre políticas públicas de fomento ao jornalismo digital no país: “Precisamos trazer o tema de políticas que podemos ter de diversas formas, desde isenção fiscal, apoio para contratação CLT, facilitação para empréstimos e até a possibilidade de um fundo”.
Dica de leitura: um meio importante de prospecção de parceiros e patrocinadores é a elaboração de um mídia kit, além de um funcionário dedicado à geração de receita. A Ajor listou o que não pode faltar nesse tipo de documento, a partir da experiência da Agência Mural.
As mudanças nos algoritmos das redes sociais e dos buscadores são alguns dos desafios colocados pelos veículos, já que cerca de 80% dos brasileiros consomem notícias online. Compreender como driblar as alterações nos padrões das plataformas – e as consequentes quedas de audiência – e conseguir distribuir a informação é atualmente um dos focos das organizações.
Essa queda pode ser sentida em diversos tipos de coberturas jornalísticas, tanto investigativa, como contou a coordenadora de estratégias e operações do Intercept Brasil, Maria Teresa Cruz, quanto em nichos de entretenimento, compartilhado pelo editor-chefe e diretor do Notícias da TV, Daniel Castro.
“Nosso veículo vive de audiência. O tema prioritário para a gente é sobretudo lidar com as quedas que aconteceram não só nas redes sociais, como também nos sites de pesquisa”, explicou Castro. “Fico refletindo sobre a possibilidade de uma proteção do jornalismo nas plataformas digitais como um todo”, completa.
Cruz apontou, por exemplo, a importância de criar meios de equilibrar as ferramentas de otimização de busca, garantindo a relevância da cobertura. “Temos que pensar em como criar esses manuais internos”, afirma.
Dica de leitura: a Ajor conversou com profissionais especializados em produção de conteúdo de organizações jornalísticas para as redes sociais.
“Costumávamos dizer que a emergência climática estava batendo à porta. Essa porta já foi arrebentada”, afirmou Maristela Crispim, fundadora da Eco Nordeste. O tema se faz presente na cobertura do jornalismo digital de modo transversal, desde a cultura aos impactos sociais Brasil afora.
Dica de leitura: a Ajor, em parceria com o iCS (Instituto Clima e Sociedade), ofereceu sete bolsas para associadas desenvolverem reportagens sobre justiça climática no país. Confira os projetos.
Cofundador da Agência Lume, organização independente que atua em diversos bairros do Rio de Janeiro, Douglas Teixeira lembrou um dos principais desafios de veículos hiperlocais ou de nicho: a construção de um vínculo com a comunidade em que atuam, lutando contra a desinformação. Pensar em estratégias de gestão e de proximidade com o público é também uma das principais tendências para o jornalismo digital, especialmente o que atua em territórios específicos, segundo as organizações ouvidas pela Ajor.
Dica de leitura: a participação de leitores nas pautas é um meio de enfrentar a desconfiança no jornalismo. A Ajor conversou com organizações que já fazem esse trabalho.
Segundo o Punto de Inflexión, estudo realizado pela SembraMedia sobre o ecossistema de meios de comunicação digital publicado em 2021, quase 38% dos fundadores das organizações entrevistadas na América Latina eram mulheres.
A diretora executiva da Agência Lupa, Natália Leal, lembrou da necessidade de apoio, segurança e acolhimento para mulheres em posições de liderança. O mesmo foi compartilhado por Jéssica Moreira, cofundadora do Nós, mulheres da periferia, organização na qual a gestão é compartilhada por seis mulheres, em uma equipe totalmente feminina.
Jéssica ressaltou também que é importante que organizações especializadas em gênero, raça e território sejam priorizadas em processos de distribuição de recursos.
Foto: John Schnobrich/Unsplash.